Monday, October 03, 2011

CAI A CHUVA


Cai a soturna noite triste e fria,
cai a chuva na deserta rua,
cai a tristeza no coração sem alegria
de tantos, quantos a dor é sua.

Cai a chuva nesta triste noite escura,
cai na molhada vidraça o sopro embaciado,
cai a melancolia por quem passa na rua,
talvez alguém que não foi e não é amado.

Na fosca rua que da vidraça reflecte e se vê,
passam tremulas sombras, de crepitantes,
será alguém varejado pelo vento ou quê?
ou alma dolorosa do pesar dos anos pungentes?

Será vida amarga que debaixo da chuva passa,
o frio que a enlaça no seu destino, como triste será...
será criança ou jovem na sua doença que propaga?
Felicidade não será! Vida na rua de noite fria, é dor acolá.

Cai a chuva nestes corações dilacerados,
cai o frio nestas almas que passam, fragilizadas:
São irmãos, quantos um tanto abandonados

            que na vida sofreram e hoje, elas estão despedaçadas.

                                                                      Valdemar Muge

Tuesday, January 04, 2011

RIOS


Ó Graça que tua graça me deixas,
que vens correndo pelos campos seguidos...
não te cansas de refrescar o que beijas,
com o teu murmurar, levas saudades e pedidos.

Tu, ó Cáster que me afagas,
tanto correste e ao meu encontro vieste...
a suavidade e beleza não a largas,
encanto que deixas aos corações e a este.

Sois dois leitos que a natureza vos deu,
águas que levam encantos sem par...
aqui, se juntam como amor só seu,
mas também o espalha em suave sussurrar.

Valdemar Muge

PORQUÊ



Porquê, que  quando estou junto de vós,

meu sentir, outro se esquece e este é que volta?:
Só ouso o teu murmúrio que de ti se solta,
tu e eu, sozinhos, sentimos o que é para nós.

Mergulho minhas mãos nas tuas águas
frescas como da fonte ainda viessem...
mas que sentir o que sinto, elas exprimem,
serão lágrimas deixadas de quantas mágoas?

Olho tuas águas, ó rios de águas claras,
(assim, sempre fossem espelho como hoje as vejo...)
trazes quantas mensagens de quem já não vejo,
palavras queridas, saudades agora por ti vindas.

Sentir este que junto de ti tenho,
desabafos que te guardo dentro do coração...
segredos que me dás como canção
e agora de mim, leva-os para bem longe, correndo.

Levas meu rosto e quanto meu ser
no brilho do sol e na magia da lua.
Tu e eu, dois seres que correm como vida sua,
pois sempre nos encontramos neste sentido viver.

Valdemar Muge

COM A PRIMAVERA

Primavera que à minha porta paraste,
como é bom ter-te e ver que voltaste...
deixaste-me uma flor de amizade
do teu jardim de encanto e alegria,
é abraço que se não esquece, mau seria...
depois de teu desejo: que floresça a felicidade.

Flores primaveris, já não tenho para dar;
dessas, tão viçosas, já não voltam a dar...
pois a primavera, aqui, já foi com a idade.
Dou-te estas simples e sinceras palavras,
são flores que ficaram guardadas,
de quando da saudosa mocidade.

Primavera que vieste e vais embora,
agora, levas a minha ternura por aí fora.
Sejam recordações felizes, queridas,
duma amizade que fica para sempre,
e eu, com a tua mocidade ausente,
fico de ti, com a saudade agora vinda.

Com a saudade
de ti nascida.


NATAL


Caminhamos, e espalharemos fraternalmente:
Em cada olhar, um sorriso;
Em cada gesto, um afecto;
Em cada palavra, uma simpatia;
Em cada necessidade, a partilha;
Para cada coração, um carinho;
Para cada ser, uma fraternidade;
Para cada desejo, a paz fecunda.
Teremos em todos os momentos,
o Natal que desejamos em todos os povos.

Valdemar Muge

Saturday, August 05, 2006

O MEDO


Medo, não!
Não te vejo, não te conheço!
Se me queres perseguir, não o consinto...
Tu, não!
Jamais me levarás para o teu labirinto.
Não te quero para companhia, não te conheço
e tua ignóbil perseguição, desprezo!
És filho da desgraça e da cobardia;
és fouce maligna da vitória do dia-a-dia!
És filho da renúncia e da derrota...
por isso, nunca tentes bater a esta porta!
Triste do povo que conhece o medo, pobre dele,
jamais terá a liberdade e a vitória junto dele,
porque a gloriosa epopeia, essa, nasceu da valentia,
da coragem e do destemor, na aurora de cada dia!
Jamais o medo existiu no arrojo dos navegadores,
mas sempre na fé do triunfo, nasceram seus esplendores!
Jamais o desconhecido medo esteve no campo da batalha,
assim foi, e em muitos heróis, a bandeira, foi a mortalha!
Foi desprezando o medo, que o grito da liberdade nascia
nas noites escuras das ditaduras, e o facho glorioso vencia!
Povos destemidos estes que não conhecem o medo,
a gloriosa honra da Pátria sempre brilhará, com ledo!
Existirá o medo? 

– Só quando alguém não queira vencer!
O glorioso guerreiro assim disse: 
”Vencer sim, até morrer!”
Ter medo de amar a vida? 

- Não!
Lutar para melhor vida possuir? 

- Sim!
Esse, é um direito que todos devem procurar usufruir!
Pois sempre direi:
O medo não o vejo, nem tão pouco o desejo!
Que todos vejam a correcta luta na vida,

sem medos, mas com a estrela que nos guia, luz querida.


Valdemar Muge

O VELHO


Homem desta terra, recordas e meditas!
Do teu livro da vida e nas folhas
já amareladas pelos anos que te pesam,
vês tuas recordações que te afloram...
quantas saudades são que em ti moram.
Recordas amores da tua mocidade;
tua presença notava-se, bela idade...
hoje, só, apenas saudosas lembranças.
Tu vareiro, sabes que a gente desta terra
quanto brio têm e dentro de si encerra!
Olhas a terra que teus braços a virava
e o mar que a rede dele vinha e a abraçavas.
Tua voz, pela tua Ria se ecoava
e naqueles caniçais, tanto caçavas.
Hoje, velho homem desta terra,
ela te chama, mas como estás cansado...
o mar te ecoa, sentindo a tua falta
e a Ria te afaga numa terna carícia,
da contida solidão da tua existência!
Tu, que os ventos rasgavas, destemido!
Onde chegavas, tua voz era ouvida,
teu nome conhecido e fama tida!
Cessem os atrevidos e vençam os justos;
calem-se as vozes sem razão e clamem os verdadeiros!
« Aqui está um homem da terra vareira!»
- Assim clamavas por onde passavas.
Hoje, apesar de tua voz o eco menos se ouvir,
dentro do teu peito, o clamor do brio ainda o sentes

e o fluxo do teimoso capricho, nas veias ainda corre.
Sabes que és um velho desta terra,
mas és um vareiro que não sabe ceder!...
Idoso sim, mas três valores em si existem,
que um dia a sua terra, consigo os levará:
Dignidade, liberdade e paz!
Esses, sempre os clamará, enquanto sua voz ecoar.

O ABRAÇO UNIVERSAL


Sempre quero estar com a natureza,
ela é exemplo que a todos mostra e dá...
pois riqueza maior não vejo nem há,
porque a sua harmonia é paz e beleza.
Vejo como as frescas ondas do mar, no seu marulhar,
se estendem no grande abraço e querem ressoar.
Olhai como os peregrinos rios deslizam
com os seus calmos murmúrios de paz
que por vós passam, até que se enlaçam;
além, os Sois, as Estrelas, as Luas,
irradiando em convívio, serenos te olhando.
Vede as aves, no seu universal diálogo, cantam
e os animais, quanto possível, a paz desfrutam.
Vede os bailarinos ventos que tanto se abraçam
e as chorosas chuvas que por nós passam.
Vede pois a natureza que à nossa volta corre,
seja ela qual for,
ela a todos abraça e nos envolve.
E nós?
Abracemos a alegria!
Abracemos a esperança!
Abracemos a paz!
O ar, as nuvens, a luz,
tudo nos quer na sua suave quietude.
O dia sempre espera pela noite,
e, os dois, num abraço amigo, aguardam pelo amanhã.
E nós que fazemos?
Construamos a alegria,
para depois a abraçar!
Alimentemos a esperança,
para depois nascer a felicidade!
Edifiquemos a concórdia,
para abraçarmos a paz!

Valdemar Muge

O ALERTA DO RAPAZ


No monte do lixo abandonado (e quanto!),
recordações abandonadas, objectos inutilizados
e por vezes quantos alimentos estragados!
Rapaz que corre, que pede, que busca...
quanta pobreza esta, abandono, angustia.
Um velho tacho encontra,
uma corda busca
e duas baquetas prepara.
Rapaz sem pai,
que nunca sabe para onde vai...
e a pobreza, o enlaça e o agarra!
Rapaz triste, revoltado,
porque não é amado.
Ele clama a todos nós:
- Basta! Ouçam minha voz!
Hoje é dia de despertar,
aqui, urge o grito do alerta!

                                              (Pam, parram pam!)
O som do velho tacho ecoava
aos surdos ventos que sempre correm,
mas que hoje, despertam e não morrem!
Porque bates no tacho, rapaz?
- Para que se não esqueçam de nós,
temos fome e falta o calor de todos vós!
                                              (Pam, parram pam!)
Para paz haver e as guerras acabar!
                                              (Pam, parram pam!)
Haja amor para todos dar
e dos corações brotar!
                                               (Pam. parram pam!)
Acordem ó gente,
tantos abandonados nas ruas vivem
e tanto foram enganados!
Acordem,
com miséria não há liberdade
e sem trabalho não há progresso!
Tanto desperdício para tantos
e tão pouco conforto para muitos!
                                               (Pam, parram pam...
                                                      pam, parram pam...

                                                            pam, parram pam!)
Valdemar Muge

O BEIJO


Suave doçura entre dois corpos carinhosos,
prova sentida de seres quão amorosos...
o beijo, esse, sempre será
elo de quanto se amará!

Beijo de criança,
é pureza irradiada de esperança,
na fonte que brota
para o rio da essência que vai percorrer!

Beijo do jovem apaixonado,
talvez seja o mais cantado...
tem desejo, amor, doçura.
(Ó quanto se recorda e perdura!)

Tantos mais há, não menos carinhosos:
de mãe e pai, e quantos mais queridos,
são ósculos de afecto, de seres unidos,
testemunhos do coração, de sentimentos amorosos.

Ó ditoso beijo, o fugaz, que saboroso,
aquele primeiro, é aurora que desponta,
vida que renasce, desejo que encanta,
chama ateada, doçura amada!

E tu, beijo de partida, és amargo que fica
e se converte em recordações retidas...
quantos são para a despedida da vida
que nos deixam e que nos foram tão queridas.

Como o beijo fala... diz o que sente!
Será talvez o maior mensageiro, sem favor,
o elo da paz e do amor!
É semente que germina no coração de cada ser,
fruto que reproduz na vida de todos nós,
ao amanhecer!

Valdemar Muge

NO ESPELHO


Espelho que nele me vejo,
um ser do mundo que dele quanto me queixo!
Um humano neste turbilhão inquietante,
que sempre tem que protestar a cada instante.
Serei culpado?
- Grito à paz e não vejo a concórdia entre os povos;
Desejo a esperança da fraternidade entre todos
e não confiam no afectuoso amor que temos;
Amargurado me vejo quando queria em todos a justiça
e vejo-a tão transformada em iniquidade!
Mundo este, tão perturbado que te vejo,
ansiedade constante, para melhor, quanto latejo!
Tanta impudência camuflada no manto da bondade,
e tanta miséria encoberta na vergonha da humildade.
Pareço-me imolado pelo que em redor vemos,
e como maravilhosa é a vida que recebemos

e parece que muitos não a querem abraçar
quando a devíamos amar!
(Excelso hino de louvor devíamos cantar.)


Que desapareçam nos espelhos os culpados das guerras;
as faces do ódio e da maldade;
Os espíritos da vingança e da cobardia!
Loucos estes que não sabem o que fazem,
que vivem na escuridão da iniquidade.
Tu, que poderás moldar para melhor
este quadro desumano, atroz e de dor,
espalhar a paz e a felicidade,
ergue-te e clama a justiça, a concórdia e a bondade!


Como seria maravilhoso, todos se verem a um espelho
e se sentirem felizes neste mundo em que vivemos.

Valdemar Muge

O RAMO DE ROSAS


No teu regaço, rosas brancas levas:
teu abraço saudoso para teus queridos!
Elas são mensagens de quanta saudade...
nas campas as depositas, prova dessa realidade.
E tu, que no regaço seguras essas tuas rosas:
carinhoso laço, símbolo de gratidão e amor!
Prova singela de agradecimento ao que invocaste,
agora, àquela Virgem, as vais dispor ternamente.
E vós, que também rosas brancas levais:
essas vos são flores de quanta felicidade e alegria!...
São para os noivos, que uma nova vida os espera;
outras, para o ditoso aniversário, a alegria as eleva.

Receber uma rosa:
É encanto, é ternura, é amor.
Ditosa vida quando cheia dessa tamanha frescura
que o ser humano tanto deseja e procura!
Uma rosa:
É quanta saudade, nostalgia, louvor.
A vida, nos enche desses sentimentos
que nos fazem sentir quanto valor ela tem!
Numa rosa:
Quantos desejos de paz e amizade, nelas vão;
mas também quantas lágrimas e dor, ficam.
Vida esta, que tanto a elevamos como uma oração,
como também nos queixamos em tantos momentos!

Numa rosa:
Pode ficar toda a mensagem
que a vida pode dar:
Suas pétalas, são símbolo de felicidade,
e seus espinhos, quanta dor e sofrimento, na verdade.
Numa rosa, tudo isto ela representa e mais o que queremos,
pois nos recorda quanto o que na vida tivemos.
Uma rosa levarei para a outra essência,
recordações de todos desta vivência.


Valdemar Muge

ONDE ESTÁ MEU CORAÇÃO?


Onde está meu coração?! Onde?
- Ali! Na ternura para aquela criança;
no afago para o necessitado;
no carinho para o idoso!

Procuro-o...
e também encontro quanto retalhado
naquelas crianças com fome;
no sofrimento do nosso irmão;
na crueldade das guerras que tantos levam;
nos ódios e injustiças que se geram,
e na insensata juventude que se destroça!

Enfim...
         mas também te encontro:
no terno e querido beijo dado;
no nosso ente sempre amado;
no amor que se dá livremente;
na liberdade e na justiça, finalmente!

Agora...
         sei como encontrar meu coração!
Sei que está na felicidade de todos vós;
na alegria de todas as crianças, até ao mais velho;
na paz dos filhos, dos pais e dos avós;
na comunicação com Deus;
na força da vida de que desejamos!

Sempre quanto mais coração terei,
mais tenho para repartir e mais ficarei!


Valdemar muge

OVAR


Ovar!                                                                                                                                                                                                Minha terra para todos,querendo, a será!
Minha voz a cantará por toda a vida,
nesta poética lida... como ovarino que sou!
Alguém tanto a cantou? - Talvez, mas quem?...
Eu, porém, a exalo de dentro do coração,
pois me é uma canção, de amor e paz.

Seria ninho das aves que se acolhiam?...
Ou seria terra aparecida a pescadores solitários?...
É possível... mas eu vos digo:
Nesta gente laboriosa que vai ao mar,
quantas vezes ao ir para a faina, o diziam: "Ó Mar"!                                                                                                                     Assim foi ecoando e nos corações gravando.

Outros, na terra destas águas, sempre lutando...
também dito teriam que ficavam em “Ó Var”!
Juntos, unidos nas palavras e nos corações,
Ovar para todos brotou e seu nome assim apareceu!
Enfim, esta beleza nasceu, que a tantos encanta,
e minha voz se levanta, a esta terra querida!

Terra esta que a todos acolhe airosa,
é jovial para a juventude que te abraça;
Àquele que te enlaça, dás a força do labor;
Tu, trabalhador, seja de que for:
letrado ou pescador, ou qualquer outro artista,
para ela vinde, ela te espera e abriga!

Visitante, vem! Fica nesta terra.
Vê o que nela encerra e vê toda a sua beleza:
Formosa Ria que tanto encanta;
O mar que suavemente nos afaga;
Os rios que deslizam, cantando
quantos saudosos amores que por eles passaram.

Quando a aurora em ti desponta, terra minha,
teus campos e canteiros encantam, ó sedução...
como estás em meu coração, natureza tua.
Além, ouço a beleza do pregão da varina graciosa;
O cantar da jovem airosa e a fadiga do vareiro:
é a vida que oferece esta terra que permanece.


Valdemar Muge

PARA ONDE VOU


Mas para onde vou?
- Pelos vossos caminhos, não!
Para não ir convosco,
quantas vezes desejo fugir com o vento!
Para não seguir as vossas vozes,
quantas vezes quero deslizar com a aragem!
Para não querer as vossas injustiças,
quantas vezes quero voar para bem longe!
Ao certo, não sei para onde vou,
mas pelos vossos caminhos, não
e vossos devaneados passos, não os sigo!
Sei que quero seguir
o caminho de justiça e da concórdia;
seguir a voz da harmonia e da paz;
percorrer com todos, de mãos dadas,
alegres e felizes, os caminhos da verdade e do amor!
Pelos vossos caminhos, não!
Mas vou por aqueles que acho mais justos,
mas que também possam ser mais difíceis!


Valdemar Muge

PAZ


Sabermos viver sem ódio e rancor,
é paz que oferecemos, paz de amor.

Espalharmos alegria e serenidade,
será paz cheia de fraternidade.

Como bom é amar o semelhante,
é irradiar a paz em cada instante.

A paz nunca morrerá, enfim,
se a concórdia viver, em ti e em mim.

Clamemos para que as guerras acabem,
e as vidas com paz e amor, vencerão.

Se procurarmos a paz e a justiça,
encontraremos a merecida tranquilidade.

Se a rectidão habitar no dever,
a paz viverá em todo o ser.

Amigos, sejamos sempre bons irmãos!
De corações afectuosos, daremos as mãos;
abracemos a paz, unidos, e clamemos:
“Viva a paz, a paz que queremos amar,
porque ela é o elo de toda a felicidade,
de hoje e sempre seja essa a que
todos nós queremos cantar”!

Valdemar Muge

PÉTALAS DE POESIA


Pétalas que ao vento se espalham,
vede, como elas se oscilam,
saudosas deslizando, se dissipam!
À minha volta, estas rosas se vão desfolhando...
suavemente morrem, e eu, saudoso meditando.
Sua existência, se extingue, ó quanta beleza!
Agora, são recordações, tristeza,
fragmentos de amor da natureza!

Nas minhas mãos, elevo estas pétalas sofridas,
ergo-as como um hino a tantas vidas queridas;
foram suave bálsamo a tantos corações,
mensagens de felicidade e também de ilusões;
estas recordações que hoje vos canto,
que minha voz ao vento, levanto,
eram pétalas belas, queridas!
Agora...
São pétalas tristes, sofridas.

As primeiras,
dos pais queridos, abraço filial,
recordações de ditoso amor sem igual!
São pétalas pelo carinho que destes,
feliz vida, que à vida me oferecestes.

Para vós irmãos, as pétala da fraternidade.
Quando juntos, tamanha era a felicidade!
Hoje ausentes... são saudades, recordações,
Tristezas para os que não voltam, ilusões...
Do imigrante, a sempre querida ansiedade.

Destas mãos, vai a pétala querida, à esposa amada,
prova de afecto, talvez nem sempre acarinhada...
Não é com estas palavras que o maior amor propaga,
porque estas, alto se houve, mas como se apaga!
Vindo do coração, sim! É quente, é chama ardente,
é amor que não arrefece e arde constantemente.

P'ra ti, filha, uma rosa em botão, pétalas douradas;
Aqui a tens! Doce, amorosa... à inocente amada!
Pequenina parece ela ser, como tu o és...
Mas quantas vezes, aquilo que parece ser, não é,
porque o amor por ti, tamanho maior não há, como vês!

Vós, amigos,
vão as pétalas da amizade...
Guardai-as!
Achai-as singelas e modestas? - Talvez...
Mas não julgueis pela aparência, no que vez...
Maior valor tem, o que dentro de nós vem,
tamanho amor, nosso coração contêm!
Elas são o laço da fraternidade
que canto, nesta mensagem de felicidade.

As pétalas que aqui vos dei,
são pedaços de vida que vos cantei!...
Em todos os versos que escrevi,
está essência de tudo que amei e vi;
Vós que recebestes estas recordações,
com afecto as dei aos vossos corações,
são pétalas de poesia, duma vida
que vos abraça e que me é querida.

Valdemar Muge

PRIMAVERA


Vamos dar as mãos, observai a natureza,
a bela primavera floriu,

seu encanto aí está como sempre se viu.
À nossa volta, floresce nova vida,
há alegria, maravilhoso nascer, é poesia.

Correm crianças, como são felizes;
juventude que canta, amorosa está;
gente sorridente, saúda a nova vida
a esta natureza, nesta primavera merecida!

Natureza esta que sempre é jovem e agradável,
mas a primavera da nossa vida, quanto encanto tem...
Ó saudade que de ti tenho, como és fugaz e findável!...
A que hoje tenho, conforto dá, esta, muitas vezes nos abraça...
mas a nossa primavera, a tão querida, a da nossa vida,
quando desaparece, enfim, não mais nos enlaça!...

Como a nossa é suave, é bálsamo do amor;
é jovem alegre, e anseia para sempre o ser;
quantas vezes insensata é, porque sonha com ardor;
é aventureira e luta para não cedo morrer.

Como a mocidade é irrequieta e persistente,
porque a primavera anda dentro da gente.
Não a queremos perder e sempre a amar,
assim, somos felizes e sempre o queremos estar.
Abracemos, tenhamos em nosso coração
a primavera do amor e da paz, irmamente.
Em nossos espíritos sempre esteja a primavera,
e a vida maior valor terá o que dentro de nós encerra!

Valdemar Muge

PROÉMIO


Bendita luz que à minha volta se propaga!
Do escuro vim, sem que nada soubesse. Tudo me espera, tudo me quer, sem que nada tivesse e desse.
Nada tinha e tudo me foi oferecido, sem que nada pedisse.
Abraço-te Natureza, meu ser nela se envolve e dela faço a humilde parte da minha existência.
Percorro os caminhos ao encontro do encanto que a sua beleza me desfruta, mas vejo tantos indefesos recantos que o ser humano maltrata e mata;
Na caminhada iniciada, procuro nos povos o bem-estar, mas encontro tanta pobreza oculta da falta de trabalho e doença;
Percorro os caminhos da compreensão, à procura da paz e da concórdia, e encontro tantos trilhos da ignomínia e da injustiça;
Percorro na estrada da vida, ao encontro do amor e da felicidade entre todos, e encontro tantas escarpas onde o homem se deixa escorregar desatinadamente para o ódio e volúpia.
Caminhada da esperança, que se transforma em desilusão.
Vim para abraçar a natureza, aquela onde todo o ser humano pudesse ser compreensivo e feliz, mas encontrei algo bem diferente, que faz dilacerar os corações pela falta de compreensão.
Na caminhada da vida, vesti-me com o fulgor da alegria, tentando espalhar tanta quanta possível junto da tristeza encontrada;
Vesti-me com o manto da paz e felicidade, deixando germinada nos corações que me quiseram ouvir;
Vesti-me de caminhante da esperança, sempre procurando a luz da verdade e da justiça, da concórdia e do amor! Continuarei sim, com a força da esperança, de encontrar a paz com o amor desejado.
Vim em dia de festa, cantaram-se alegrias e louvores ao nascimento. A aurora à nova vida resplandecia e a primavera em breve viria, a pródiga natureza era inundada com as boas vindas àqueles que nasciam, num elo de fraternidade e compreensão. Eis a união da vida, do amor e da esperança!
O ser humano confunde-se facilmente. Como suas almas são flexíveis e contornáveis: umas seguem os caminhos que o Criador da natureza aconselha, difíceis, mas gratificantes; outras, os caminhos mais fáceis, com metas e destinos obscuros e confusos, germinadores do mal e violência.
Quantos sonhos que construímos e transportamos, mas como se diluem nas sulcadas da vida.

*

Nos meus versos, encontrareis pétalas aspergidas aos vossos corações, algumas manchadas de dor e sofrimento que não pude deixar de escrever, elas são, sentimentos tidos através da caminhada realizada.
Encontrareis também nestas páginas, tantas outras pétalas de beleza e encanto, nos costumes e tradições existentes dum povo, na sua fé, na alegria e felicidade.
Na vida, quantas flores brotam: tantas com espinhos que os corações ferem, mesmo que belas sejam e outras, menos belas que sejam, ao coração de carinho transborda.
Repousemos e meditemos na natureza.
Nela, procuremos a alegria que o Sol nos oferece, a Luz que ilumina os verdadeiros caminhos da vida e da felicidade;
A nascente da água, seja meditação e força viva dos trilhos que temos a percorrer, tal como ela, com o seu cristalino líquido, a pureza e a transparência que nossos corações devem transparecer;
Procuremos na terra trabalhada e fertilizante, a fecunda seiva que brota para a vida, o renascer constante que dela gera, vida que nos abraça e que todos os dias a desfrutamos, exemplo de que todos os nossos dias deve ser contínuo renascer de paz e amor.
Deixemos ouvir o chilrear do pardal ou o chilrar da andorinha, o farfalhar da árvore ou o bramar do mar, e nossos corações receberão o bálsamo reconfortante da serena paz!
Foi desta natureza, terra mãe onde vivi, que nasceram as pétalas que vos dediquei nestas páginas que à vossa frente vos espera, na mesma que também um dia o tumulo se abrirá ao corpo esfriado e à alma que aqui percorreu, enfim.

*

Eis aqui os meus versos!
Eis os sentimentos que trespassaram para o exterior, e o lápis, cúmplice e atrevido, revela as doçuras, tristezas e alegrias contidas, quantas vezes guardadas em segredo. Ai atrevido lápis!
Eis à vossa frente, meus amigos, os meus versos, pincelados em várias cores, na tela da vida, na esperança de que vos sirvam para alguma coisa, que vos entre nos corações e vos faça recordar por muito tempo o vosso bom amigo que vos dedicou estas letras com todo o afecto.
Eis o meu modesto testamento que vos deixo, já que outro não posso declarar.
Tentei-as cantar, mas minha voz rouca, aos ouvidos estremecia, e meus lábios tímidos, a voz tremia... Assim, vos ofereço de coração para coração, (assim me foi possível contactar com todos.)
Eis os sentimentos transbordados, sensíveis ao que vi e amei, para todos que os queiram receber, fragmentos poéticos envolvidos nestas folhas de papel, prontas a vos acompanhar na caminhada da vida.
Eis os versos duma caminhada que viu a Luz do Sol, dádiva da força do Criador;
A serena noite, prólogo para o sempre renascer do novo dia da esperança;
A brisa, mensagem refrescante a lembrar a paz e o amor em todos os homens;
A chuva, seja o alimento da natureza de que todos devem respeitar e cultivar!
Nestas páginas, está o encontro com a criança, seu encanto e doçura cativantes;
A beleza da mulher, da sua juventude e o admirável ser mãe;
No pobre que pode ser nosso irmão e no homem que não quer ouvir a esperança da concórdia!
Eis o homem que vos fala, ser que vos quis transmitir aquilo que pensou, sentiu e que sempre desejou.
Memórias que ficarão para vós e para os que virão, comigo fica a vossa dedicação, respeito e amizade.

Valdemar Muge

QUANDO O VENTO VEM














Vento este que vem,
com suas palavras...
vento chegado,
quantas tristes saudades gravadas.
Vem o vento
deste mar de marejar revolto...
de palavras penosas,
de clamores lancinantes ao ar solto!
Vento de suão que de longe vens,
és violento e suavidade não tens.
Veio este vento,
de vozes angustiantes...
de queridos que ficaram,
corações vazios quanto se amavam...
Para que vieste
ó malfazejo vento?
- só trazes mágoas aos corações ansiosos
e lágrimas aos olhos que o mar lhes roubou.
Vento que de luto almas cobres...
riqueza, aos corações a eles tiraste
e quanto os deixaste mais pobres.
Vai! Vai de volta,
leva os choros e saudades...
lágrimas escaldantes
que já não consolam.
Vai de volta com o choro dos

corações lacrimosos, leva...
Aqui, fica o vazio
neste mar
que mágoas traz
e não consola!


Valdemar Muge.